Sarah Cavalcante – Hospital de Queimadas Idade: 8 meses

Paciente: Sarah Cavalcante – Hospital de Queimadas 

Hipótese diagnóstica: BVA? Miocardiopatia dilatada do VE com disfunção sistólica

História da Doença Atual (HDA):

Lactente 8 meses admitida no hospital de Queimadas com relato de cansaço há aproximadamente 15 dias, com piora progressiva nos últimos 5 dias. Genitora refere tosse seca com início no mesmo período.
Realizou tratamento prévio com amoxicilina por 7 dias, concluído no final de dezembro. No momento da admissão hospitalar, encontrava-se em uso de azitromicina, prednisolona (Prelone®) e hidroxizina (Hixizine®).
Vacinação atualizada para a idade. Na caderneta da criança constam apenas os testes de triagem neonatal de
linguinha e orelhinha, ambos sem alterações; teste do pezinho não localizado até o momento.

Evolução clínica:
Genitora relata melhora do desconforto respiratório em relação ao dia anterior. Durante a visita, a lactente apresentava taquipneia leve com tiragem subcostal e intercostal, sem batimento de asas nasais e sem retração de fúrcula. Afebril, sem novos episódios febris.

Exame físico:
AR: MV + em AHT, sem ruídos adventícios. TSC discreta. FR: 43 irpm. Sat O₂: 99%
ACV: ritmo cardíaco regular, BNF, sem sopros audíveis. Pulsos simétricos (SIC).FC: 139 bpm
Abdômen: semi-globoso, fígado palpável a 2 cm do RCD.

Realizado ECO de triagem por Dr Kleriston evidenciando:

Miocardiopatia dilatada do VE com disfunção sistólica pelo menos moderada a importante análise qualitativa
Insuficiência mitral discreta/moderada. Dilatação das artérias pulmonares a análise qualitativa.
Dificuldade na captação das imagens no eixo paraesternal e janela supraesternal com visualização do arco aórtico limitada
pois lactente chorosa e inquieta, porém, não me pareceu haver pontos de estenose crítica.
Os óstios coronarianos parecem normoposicionados, porém há duvida sobre a origem anômala coronariana.
Sinais sugestivos de hipertensão pulmonar por congestão venocapilar.

Resumo Clínico

Lactente de 8 meses, admitida com quadro de desconforto respiratório progressivo há cerca de 15 dias, inicialmente tratado como afecção respiratória baixa. Evolui com melhora parcial dos sintomas respiratórios, mantendo taquipneia leve. Encontra-se hemodinamicamente estável, afebril, com saturação de O₂ preservada em ar ambiente. Ecocardiograma transtorácico evidenciou miocardiopatia dilatada do ventrículo esquerdo, com disfunção sistólica moderada a importante e sinais de congestão venocapilar pulmonar, achado que pode justificar ou contribuir para o quadro respiratório.

Hipótese Diagnóstica Cardiológica (HD)

1.Miocardite viral – hipótese principal
(compatível com história recente de quadro infeccioso respiratório)
Disfunção ventricular esquerda aguda/subaguda; Congestão pulmonar associada

  1. Origem anômala de artéria coronária (ex.: ALCAPA) – diagnóstico diferencial relevante
  • A considerar em lactente com miocardiopatia dilatada e disfunção sistólica importante
  • Pode cursar com sintomas respiratórios, taquipneia e sinais de insuficiência cardíaca
  1. Cardiomiopatia dilatada idiopática (diagnóstico de exclusão)
  2. Cardiomiopatia por deficiência metabólica(hipotireoidismo????)

Achados ecocardiográficos compatíveis com miocardiopatia dilatada com disfunção sistólica moderada a importante, sendo miocardite viral a principal hipótese etiológica no momento, sem afastar origem anômala de artéria coronária, diagnóstico diferencial prioritário nesta faixa etária e que deve ser investigado de forma dirigida.

Conduta Cardiológica

  1. Manter internação com monitorização cardiorrespiratória contínua e se possível transferência para
    serviço de referência em cardiologia pediátrica ( HUAC, HULW ou Arlinda Marques)
  2. Otimizar tratamento de insuficiência cardíaca:
    Iniciar furosemida: 1mg/kg/dia EV, 12/12h. Aumentar dose se sinais clínicos ou radiológicos de congestão
    Introdução cautelosa do captopril, conforme estabilidade hemodinâmica Iniciar 0,5mg/kg/dia 8/8h
  3. Evitar sobrecarga hídrica, com controle rigoroso de balanço hídrico
  4. Avaliar necessidade de broncodilatadores, considerando efeito de taquicardia e piora hemodinâmica
  5. Solicitar exames complementares

# Laboratoriais
BNP ou NT-proBNP; Troponina I ou T; CK-MB; Hemograma completo; PCR e VHS
Função renal (ureia, creatinina); Eletrólitos séricos (Na⁺, K⁺, Ca²⁺, Mg²⁺) TGO, TGP
Função tireoidiana (TSH, T4 livre); Lactato sérico
Se disponível e conforme evolução:
Sorologias virais (enterovírus, adenovírus, parvovírus B19, CMV, EBV)

# Exames de Imagem e Avaliação Cardíaca
Ecocardiograma com cardiologista com foco na avaliação detalhada da origem e trajeto das artérias coronárias
Eletrocardiograma de 12 derivações; Radiografia de tórax
Considerar angio-TC cardíaca com avaliação da aorta e de coronárias ou ressonância cardíaca, caso persistam dúvidas quanto à anatomia coronariana ou para melhor caracterização de miocardite

  1. Caso confirmação de origem anômala de coronária, indicar avaliação cirúrgica especializada de forma precoce